Títulos de Longo Prazo: Armadilha ou Oportunidade de Investimento?
Analisamos se os títulos públicos de longo prazo são uma boa opção em meio à instabilidade econômica atual e às taxas elevadas.
Atualização: 31 de agosto de 2026, 11h15
Nos últimos dias, os juros dos títulos públicos de longo prazo no Brasil apresentaram uma leve queda, mas ainda permanecem em níveis historicamente altos. Os papéis atrelados ao IPCA, por exemplo, oferecem 7,5% acima da inflação. Essa situação resulta de pressões nas contas públicas e do cenário internacional, onde os rendimentos dos Treasuries americanos também permanecem elevados.
Recentemente, os títulos do Tesouro dos EUA tiveram uma nova alta, especialmente após a dívida pública do país ultrapassar a marca de US$ 40 trilhões. Mesmo com a falta de sinais de intervenção no mercado ou declarações mais rigorosas do presidente do Federal Reserve, essa situação não alterou a trajetória.
Diante desse cenário, surge a pergunta: as taxas oferecidas na renda fixa de longo prazo são realmente atraentes ou podem se tornar uma armadilha?
Alguns gestores veem a nova onda de inadimplência como uma oportunidade de investimento e se preparam para captar recursos. Os títulos atrelados à inflação são considerados promissores por muitos especialistas, embora não haja consenso entre eles.
Argumentos a Favor
Lucas Queiroz, estrategista de renda fixa, propõe um exercício interessante: imaginar um investidor que não precise acessar seu dinheiro por uma década. “Se você dormisse hoje e acordasse em 10 anos, o melhor investimento teria sido o prefixado longo”, afirma. Ele acredita que o mercado projeta uma Selic de equilíbrio em torno de 10%, enquanto os títulos prefixados longos estão pagando cerca de 14% atualmente. “Dentro do universo da renda fixa, certamente será o melhor investimento.” No entanto, Queiroz reconhece que o caminho até esse rendimento pode ser volátil.
Para investidores que buscam um retorno similar com menos riscos, ele sugere o Tesouro IPCA+ de prazo longo, que oferece entre 7% e 8% acima da inflação. “Se você optar pelo CDI durante esses 5 ou 10 anos, terá uma média de retorno entre 5% e 6% acima da inflação”, explica.
Argumentos Contra
Por outro lado, Igor Campos, gestor de renda fixa da Armor Capital, analisa a mesma taxa real, mas chega a uma conclusão diferente. Ele parte do princípio de que a taxa neutra atual é mais alta do que em períodos anteriores, situando-se entre 6% e 6,5%. Soma a isso o nível de restrição que o Banco Central precisará manter para alcançar a meta de inflação de 3%. “Um grau de restrição de cerca de 1% a 2% parece viável”, diz. Nessa perspectiva, um juro real de 7,5% a 8% deixa de ser considerado um prêmio e se transforma quase no custo esperado da política monetária, sem proporcionar um ganho real.
“Quando vejo esse juro real se aproximando de 8%, não me parece um prêmio suficiente”, ressalta. A análise de Campos é semelhante à da Verde Asset, que também não vê remuneração adequada para compensar o risco de um possível descontrole na política fiscal. Para Campos, o que realmente está barato é a inflação implícita na curva, que está bastante elevada em relação à meta do Banco Central, em torno de 6%. Por isso, ele prefere adotar uma visão focada no juro nominal, o que, na prática, significa apostar simultaneamente em diferentes cenários.