Roupa de Mãe Bernadete doada ao Museu Nacional do Brasil
Peça histórica da ialorixá Mãe Bernadete agora faz parte do acervo do Museu Nacional, reforçando a memória da comunidade quilombola.

O Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro, agora abriga uma valiosa peça de uso pessoal da ialorixá Mãe Bernadete, uma figura importante e respeitada da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, que foi assassinada em 2023. Essa comunidade está situada em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, na Bahia.
A doação, que consiste em um vestido branco adornado com detalhes em azul, foi realizada pelo professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho de Mãe Bernadete. Isso ocorreu durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, cujo tema foi Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas. O evento teve lugar nesta semana no Museu Nacional, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio.
A instituição destacou que essa iniciativa faz parte de um esforço para reconhecer e preservar as memórias, saberes e práticas das comunidades quilombolas, considerando-os patrimônios vivos. Isso amplia as oportunidades de representação dessas histórias em um espaço tão significativo.
Jurandy contou que foi abordado por representantes do Museu, que lhe perguntaram sobre a possibilidade de doar uma peça de sua mãe. Ele aceitou a proposta e escolheu a indumentária, que, segundo ele, representa muito mais do que um simples vestuário.
“A doação da indumentária não é apenas a entrega de um objeto. Para nós, isso transcende. Refere-se à ancestralidade e a uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida à defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território. Essa indumentária é uma forma de manter viva a memória de Mãe Bernadete”, explicou em uma entrevista à Agência Brasil.
O gestor cultural e líder do Quilombo Pitanga de Palmares acrescentou que ter a indumentária de sua mãe no Museu Nacional é um fortalecimento da cultura afro-brasileira e da memória de um povo que, como ele destacou, sempre enfrentou humilhações e sofrimentos.
“Esse povo sempre foi negligenciado pelo sistema. Essa doação representa um reconhecimento. É um resgate da memória, a continuidade dessa história e o empoderamento da nossa gente”, concluiu.
Em um texto que enviou à Agência Brasil, Jurandy ressaltou que, para a Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, essa doação é uma forma de ultrapassar os limites do território, levando a história, os conhecimentos ancestrais e a identidade quilombola a um dos mais importantes espaços de preservação científica, histórica e cultural do Brasil.
“Com a inclusão da indumentária no acervo do Museu Nacional, ela ajudará futuras gerações, pesquisadores e visitantes a conhecerem não apenas a trajetória de Mãe Bernadete, mas também a história de resistência dos povos quilombolas e das comunidades tradicionais”, afirmou.
Para Jurandy, a doação vai além de apenas entregar uma roupa. “Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um fragmento da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua firme em sua resistência. A memória de Mãe Bernadete permanece viva, pois seu legado continua!”, finalizou.
