RJ: Mulheres Rodadas Renova Debate Sobre Violência Contra a Mulher
Desde 2015, o Mulheres Rodadas discute o assédio, a violência doméstica e o feminicídio por meio de fantasias, placas e performances.
Uma marca de tiro, criada com pintura corporal e enfeitada com lantejoulas prateadas, adornava a perna de pau da acrobata e pernalta Luciana Peres, de 46 anos. Nesta quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026, ela desfilou pelo Bloco Mulheres Rodadas, na zona sul do Rio de Janeiro, fazendo uma poderosa referência às tentativas de assassinato da farmacêutica Maria da Penha Fernandes, ocorridas em 1983. Mais de uma década depois, em 2006, Maria da Penha se tornou um símbolo da luta contra a violência doméstica no Brasil, quando sua história inspirou a criação da lei federal que tipifica esse crime.
“Não consegui pensar em outro assunto a não ser a luta pela vida das mulheres”, declarou Luciana, refletindo sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, que se completam em 2026. Ela também mencionou, com tristeza, o alarmante aumento de feminicídios no ano anterior, em 2025.
De acordo com o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, o Brasil registrou 1.518 vítimas desse crime no ano passado. “Precisamos de políticas públicas eficazes, caso contrário, todos os dias mais mulheres perderão suas vidas”, acrescentou.
Desde 2015, o bloco Mulheres Rodadas tem sido um espaço vital para discutir temas como assédio, violência doméstica e feminicídio, utilizando fantasias, placas e performances para transmitir sua mensagem impactante.
Em uma de suas apresentações, ao som de "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque, as pernaltas também abordam a violência transfóbica, que coloca o Brasil entre os países com as maiores taxas de assassinatos de transexuais. As tintas vermelhas e as acrobacias são uma representação visceral das agressões.
Ao longo do desfile pelas ruas do Flamengo, diversas performances celebram a solidariedade feminina. Em alguns momentos, as participantes ajudam umas às outras a se levantar do chão, simbolizando a união e o apoio mútuo.
Para reforçar a força das mulheres, a seleção de músicas das ritmistas é feita com muito cuidado. Simone Ferreira, regente e coordenadora de percussão, explica: “Escolhemos intérpretes e compositoras mulheres ou músicas que exaltam a condição feminina, que se entrelaçam com as performances das pernaltas”. Na playlist, clássicos como "Abre Alas", de Chiquinha Gonzaga, "Vai, Malandra", de Anitta, "Ama, Sofre e Chora", de Pabllo Vittar, "Tieta", de Luiz Caldas, "Vermelho", de Fafá de Belém, além de hits internacionais como "Toxic", de Britney Spears e "Girls Just Want to Have Fun", de Cyndi Lauper.
Este ano, o bloco também atraiu turistas e artistas internacionais. A pernalta francesa Lucie Cayrol, vinda de Toulouse, aproveitou a ocasião para homenagear a advogada franco-tunisiana Gisèle Halimi, reconhecendo sua contribuição para a despenalização do aborto na França, em 1975. No entanto, o país ainda luta contra a violência doméstica.
Lucie relembrou o caso de Gisèle Pelicot, que recentemente lançou um livro de memórias. Durante dez anos, Pelicot foi dopada pelo ex-marido, que convidou mais de 50 homens desconhecidos para estuprá-la. O agressor foi condenado à prisão pela Justiça francesa em 2024.
A coordenadora do bloco, jornalista Renata Rodrigues, destaca que, mesmo após uma década de atuação, o tema principal da luta continua relevante e urgente.
