
O que o cancelamento da Pixar revela sobre Hollywood
O cancelamento de Be Fri ilustra os desafios enfrentados por narrativas femininas em Hollywood, mesmo após avanços no empoderamento feminino.
Divulgação/Pixar
Não é novidade que Hollywood tem uma longa história de enxergar as mulheres como um problema. Apesar de movimentos como o #MeToo e debates sobre empoderamento feminino terem impulsionado algumas mudanças na indústria do entretenimento nos últimos anos, a realidade ainda deixa muito a desejar. Um exemplo recente que ilustra essa situação é o cancelamento da animação da Pixar, intitulada Be Fri. Essa produção estava em desenvolvimento há cerca de três anos, sob a direção de Kristen Lester, e prometia trazer uma história interessante.
A narrativa girava em torno de duas melhores amigas adolescentes que, após perderem o contato, se reencontravam ao descobrir que seu programa favorito — uma série no estilo de Sailor Moon — era real. Juntas, elas seriam lançadas em uma aventura interdimensional com a missão de salvar a humanidade. No entanto, essa ideia nunca chegou a se concretizar. Segundo uma reportagem do Wall Street Journal, a animação foi cancelada no final de 2023, mesmo após passar por quatro reformulações significativas e até uma reescrita apressada do roteiro para atender às exigências da Disney. Todo esse esforço, no entanto, não foi suficiente, e Be Fri foi descartada pela Pixar quando já estava prestes a entrar na fase de animação.
O cancelamento pegou os funcionários do estúdio de surpresa. Muitos ficaram perplexos com o descarte de um projeto que levou tanto tempo para ser desenvolvido e que ainda contava com cerca de 50 pessoas na equipe de produção. Em uma entrevista ao The Hollywood Reporter, um ex-funcionário da Pixar revelou que, mesmo com a reformulação pedida pela Disney, o trabalho da diretora e dos artistas de storyboard acabou sendo deixado de lado. O motivo? O projeto foi considerado “feminino demais”. Essa afirmação gerou polêmica em março, quando Pete Docter, o diretor criativo do estúdio, declarou que a decisão foi tomada porque a empresa “estava fazendo um filme, não gastando centenas de milhões de dólares em terapia”.
O cancelamento de Be Fri, uma história que se focava em duas adolescentes e foi vista como “girl power demais” pela Disney, expõe um problema significativo em Hollywood: grandes estúdios parecem relutantes em dar destaque a histórias protagonizadas por mulheres. Em vez de abrir espaço para narrativas originais e representativas, a tendência é silenciar vozes femininas, o que é, no mínimo, preocupante.
