
Novo presidente de Portugal prioriza estabilidade em incertezas
Num contexto de incerteza e reconstrução após as tempestades, o mandato de Seguro será de continuidade ou abre nova dinâmica em Belém? Professor da NOVA SBE antecipa cenário de estabilidade, mas com pressão para políticas de longo prazo e maior alinhamento estratégico entre presidente e Governo.
Em um momento em que Portugal se prepara para a difícil tarefa de reconstruir-se após tempestades devastadoras, e enfrenta um cenário europeu e global repleto de incertezas, a eleição de António José Seguro para a Presidência da República levanta uma questão crucial: estaremos diante de um ciclo de continuidade institucional ou do início de uma nova dinâmica na relação com o Governo?
Em entrevista à Euronews, António Alvarenga, professor associado convidado da NOVA School of Business and Economics (NOVA SBE) e especialista em Planeamento por Cenários, Prospectiva e Estratégia, prevê um mandato que se destacará pela estabilidade e alinhamento estratégico. No entanto, ele também aponta para tensões inevitáveis que surgirão entre a necessidade de rigor orçamental, a urgência da reconstrução e a transformação estrutural do país.
Após a eleição de António José Seguro, estamos, portanto, em um cenário que poderá ser de continuidade institucional, similar ao que observamos entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, ou talvez assistamos a uma reconfiguração na relação entre o presidente da República e o primeiro-ministro.
O que parece ser esperado é uma maior estabilidade. O novo presidente da República é visto como um institucionalista, alguém que já declarou seu compromisso com a estabilidade em um momento de grandes incertezas, tanto no contexto europeu quanto global. O ponto aqui é que, se há algo a se esperar, é um alinhamento maior e um esforço contínuo por políticas que considerem o longo prazo.
Mas que tipo de influência um presidente como Seguro pode ter na definição das prioridades do país? É importante lembrar que o presidente não faz política diretamente, pois não é um executivo. No entanto, ele pode mobilizar diferentes atores, posicionar agendas e dar destaque a certos temas, transformando-os em prioridades políticas. Essa função é crucial, pois carrega um simbolismo significativo no que diz respeito às principais mensagens e à representação internacional. Assim, ele pode, por exemplo, pressionar para que questões como educação, habitação e saúde permaneçam em destaque na agenda. Além disso, ele pode garantir que a resposta às tempestades seja gerida de forma transparente e eficiente.
E como isso se relaciona com a estabilidade em um contexto de consolidação orçamental? Aí reside uma tensão. Portugal tem feito avanços significativos nos últimos anos, crescendo acima da média europeia, controlando a inflação e alcançando níveis de controle da dívida pública que, surpreendentemente, devem ficar abaixo dos 90% do PIB este ano. No entanto, já enfrentamos riscos em relação à dívida, especialmente considerando a necessidade de investir em defesa, infraestrutura e saúde. Esses três pilares, que tiveram um impacto positivo na economia portuguesa, agora podem se tornar um desafio a ser superado.