Novaya Gazeta encerra atividades sob pressão das autoridades russas

A renomada publicação independente da Rússia se despede após 30 anos de jornalismo investigativo, citando repressão estatal e ameaças à liberdade de imprensa.

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A imagem do edifício da Novaya Gazeta, capturada no dia em que o jornal anunciou seu fechamento, é um poderoso símbolo do fim de uma era. Por três décadas, a Novaya Gazeta se destacou como uma das publicações independentes mais renomadas da Rússia. Porém, agora, a história chega a um ponto triste: o jornal está encerrando suas atividades e, em sua declaração, acusou as autoridades russas de "assassinar" a publicação. "Eles nos mataram", diz a mensagem no site da Novaya Gazeta.

Com a afirmação de que "o jornal não existe mais", a nota explica que as autoridades e os serviços secretos russos forçaram o fechamento da publicação. Um fator crucial é que a Novaya Gazeta recebeu uma ordem de despejo e, ao mesmo tempo, o sistema que permitia que o jornal recebesse doações dos leitores foi desativado, impossibilitando qualquer forma de financiamento.

Ao longo dos anos, a Novaya Gazeta construiu uma reputação sólida em reportagens investigativas destemidas, abordando temas como corrupção, violações dos direitos humanos e abusos de poder – assuntos perigosos na Rússia atual. Um detalhe impactante é que, no escritório do jornal, a sala utilizada pela jornalista Anna Politkovskaya, assassinada há 20 anos, permanece inalterada desde sua morte.

A publicação recordou que, ao longo do tempo, seis jornalistas associados a ela foram assassinados por "cumprirem seu dever profissional e cívico". Entre esses profissionais está Politkovskaya, que foi morta no corredor de seu prédio, em um mês que marca duas décadas de sua trágica perda. Ela havia reportado extensivamente sobre as guerras na Chechênia, entre outros temas delicados.

Na declaração que anunciou seu fechamento, a Novaya Gazeta fez uma dura crítica às autoridades russas, alegando que o jornal foi vítima de um "ato coordenado" e responsabilizando "o aparato estatal repressivo". "Os direitos humanos e as liberdades foram eliminados no país, e sua proteção se tornou um crime", afirmaram.

"Os tribunais foram destruídos, assim como a lei. Ter convicções pessoais é agora considerado traição ao estado."

Desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, a pressão sobre o jornalismo independente e sobre os jornalistas russos tem aumentado. Logo após o início do que o Kremlin chama de "operação militar especial", novas leis foram criadas para punir a dissidência e silenciar críticas ao governo e à guerra.

A Novaya Gazeta e sua equipe enfrentaram uma série de dificuldades. As autoridades já haviam revogado a licença do jornal e bloqueado o acesso ao seu site. Vários jornalistas e colaboradores foram rotulados como "agentes estrangeiros", um termo frequentemente utilizado pelas autoridades russas para punir críticos. No início deste ano, a redação foi alvo de uma busca policial.

O veterano jornalista investigativo Oleg Roldugin foi preso e acusado de "acesso ilegal a informações computadorizadas". Recentemente, o editor-chefe do jornal, Sergei Sokolov, foi levado para interrogatório policial, e sua casa foi vasculhada. Apesar de toda essa pressão crescente, a Novaya Gazeta conseguiu, de alguma forma, continuar suas operações, ainda que em um cenário cada vez mais hostil.

Atualizado há 2 horas

No pós-escrito da declaração, a redação da Novaya escreve que o último número do jornal vai sair. Juntamente com a redação encerra também o museu da jornalista Anna Politkovskaya, aberto no seu gabinete a 7 de outubro de 2021, no 15.º aniversário do seu assassinato.

A Novaya Gazeta foi criada em 1993 por antigos colaboradores da Komsomolskaya Pravda, como Serguei Kushnerev, Pavel Voshchanov, Akram Murtazaev, Dmitry Sabov e Dmitry Muratov. Os primeiros computadores da redação foram comprados com a ajuda do ex-presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov.

Parte dos jornalistas, depois do início da guerra, deixou a Federação Russa e lançou o projeto Novaya Gazeta Europa, cujo principal escritório se situa na Letônia.

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