Manifesto das Mulheres Negras: Eleições 2026 e Bem Viver
Ativistas lançam documento que prioriza justiça e inclusão nas eleições, destacando a importância da voz feminina negra na política brasileira.
© Marcelo Camargo/Agência Brasil
“Levanta povo, cativeiro já acabou!” Essa poderosa frase é um dos versos da canção "Cangoma me Chamou", interpretada pela cantora Clementina de Jesus. Na última quarta-feira, dia 26 de agosto de 2026, essa música ressoou forte em Brasília, onde ativistas e lideranças negras se reuniram para o lançamento do Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026, uma iniciativa coordenada pela Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB).
O manifesto traz à tona a necessidade de um sistema político que priorize o Bem Viver. Nesse contexto, conceitos como justiça, equidade, solidariedade e dignidade devem ser o cerne das decisões e da formulação de políticas públicas que realmente funcionem.
Além disso, a proposta do feminismo negro enfatiza a emancipação, a inclusão e o exercício da cidadania, colocando as mulheres pretas e pardas no centro do processo político. Elas devem ser reconhecidas não apenas como cidadãs e eleitoras, mas também como lideranças em suas comunidades e candidatas a cargos de poder.
O ponto aqui é que o manifesto defende que as mulheres negras não podem ser vistas apenas como destinatárias de ações que buscam reduzir desigualdades. Elas aspiram a muito mais do que isso.
“É fundamental que a nossa importância na vida política seja reconhecida pela nossa capacidade de gestão e de imaginação. Isso torna nossa presença nas casas legislativas e no executivo uma prioridade absoluta”, afirma o texto do manifesto.
Cientes do impacto significativo que as mulheres negras têm nas eleições deste ano, elas buscam amplificar a voz coletiva em defesa das causas que afetam a população preta e parda. Isabel Faroni, diretora do Instituto Akanni, uma instituição de Porto Alegre que atua em direitos humanos, gênero e raça, ressalta essa necessidade: “Precisamos ter voz, sermos ouvidas. O manifesto é uma proposta de sociedade maravilhosa, porque queremos partilhar de maneira justa e cuidar umas das outras.”
Durante a reafirmação do Pacto do Bem Viver, Jolúzia Batista, coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), explicou que a luta promovida pelo manifesto busca igualdade, justiça e reparação, visando corrigir desigualdades estruturais que se arrastam há mais de três séculos de escravidão no Brasil.
Jolúzia também destacou que a articulação tem trabalhado na criação de plataformas políticas que apresentem propostas para o país, além de buscar aumentar a participação das mulheres negras na agenda pública. “Estamos elaborando um conjunto de diretrizes para candidatos e governantes, com uma análise da realidade que nos permitirá cobrar e efetivar essas propostas, sempre focando na representação política dentro da estrutura do poder”, projetou.
O documento ainda ressalta que o racismo e o sexismo continuam a impactar as disputas eleitorais, propondo medidas para enfrentar essas desigualdades persistentes.
Em Brasília, o grupo também criticou a desvalorização das mulheres nos partidos políticos e a escassa destinação de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), popularmente conhecido como Fundo Eleitoral.
As representantes reforçaram suas intenções com a hashtag #EuVotoEmNe.
Atualizado há 34 horas
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas Eleições Gerais de 2026, do total de candidaturas (20.560), no recorte de raça e cor, as mulheres pretas somam 1.234 candidaturas, equivalentes a 6% do total e 2.485 (12,2%) são candidatas pardas. Os percentuais contrastam com a composição da população brasileira. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual (Pnad Contínua) de 2021, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 28,2% da população brasileira, ou cerca de 58 milhões de pessoas, eram mulheres negras.