Fenaj Critica Superficialidade nas Campanhas Eleitorais de 2026
A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, destaca a falta de propostas profundas nas campanhas eleitorais e a influência da crise política atual.

O debate público sobre o futuro do Brasil enfrenta um esvaziamento significativo, resultado de um modelo eleitoral distorcido e carente de propostas estruturais. Essa é a análise de Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Em entrevista à Agência Brasil, ela aponta que os verdadeiros problemas do país estão sendo ofuscados por dois fatores principais: a incessante busca da grande mídia por audiência imediata – muitas vezes efêmera – e a adoção de uma abordagem de marketing superficial por parte dos candidatos.
Samira expressa sua preocupação com o processo violento de 'tiktokização' nas campanhas eleitorais, afirmando que 'tudo se resume à dancinha'. Em um cenário onde as atenções estão fragmentadas e o consumo de notícias se torna cada vez mais superficial, poucos candidatos se dispõem a discutir profundamente as questões que afetam o Brasil.
Além disso, Samira enfatiza a importância do jornalismo em momentos de crise, como a situação atual do Supremo Tribunal Federal (STF), e a necessidade de ir além do que está sendo abordado. A seguir, confira os principais trechos dessa conversa exclusiva.
Agência Brasil: A crise político-institucional atual, que envolve denúncias relacionadas ao caso Master, tem alguma influência sobre o debate eleitoral?
Samira de Castro: Com certeza. Essa crise já ultrapassou o âmbito do Poder Judiciário, envolvendo outras instituições, como a Polícia Federal, e monopolizando as discussões. O que me preocupa é que, na minha opinião, ela continuará a dominar o noticiário.
Agência Brasil: Com a proximidade do primeiro turno [marcado para 4 de outubro], você acredita que a imprensa e a opinião pública conseguirão encontrar um equilíbrio na cobertura do caso, enquanto também estimulam os candidatos a apresentarem suas propostas e abordarem os demais problemas que o Brasil enfrenta?
Samira de Castro: Para ser bem franca, não estou tão otimista. Um aspecto que me preocupa, e que é compartilhado pela Fenaj, é a superficialidade do jornalismo declaratório, que acaba tratando esses e outros escândalos de forma rasa.
Agência Brasil: De que maneira essa superficialidade prejudica o debate eleitoral e, em última análise, o andamento normal das eleições?
Samira de Castro: Em primeiro lugar, o debate eleitoral se torna prejudicado porque todas as atenções se voltam para a crise institucional, que envolve o Poder Judiciário. Como resultado, as pautas tradicionais dos períodos eleitorais – como as propostas dos candidatos, as demandas da sociedade civil e os temas de relevância nacional – acabam em segundo plano.
Embora alguns veículos tentem entrevistar candidatos ou realizem séries sobre os problemas reais do Brasil, esses esforços ficam ofuscados pela crise. Isso ocorre, em parte, por uma lógica própria da comunicação, que busca a audiência e, portanto, atrai a atenção do público. O triste resultado é que a população não se envolve em discussões mais profundas sobre os programas de governo e as candidaturas, prejudicando a sociedade civil organizada, cujas propostas ficam sem a devida atenção.