Exposição 'O Barco' no Sesc Pompeia: Reflexão sobre Tráfico de Pessoas

A instalação de Grada Kilomba destaca a história do tráfico transatlântico de africanos, convidando à reflexão sobre a memória e a dor coletiva.

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As marcas do tráfico transatlântico de africanos escravizados, classificado pela Assembleia Geral da ONU como o crime mais horrendo já cometido contra a humanidade, ganham destaque na obra "O Barco". Esta exibição, apresentada no Sesc Pompeia, em São Paulo, desde 22 de setembro de 2026, nos convida a refletir sobre um passado doloroso e suas consequências.

Ao longo de 400 anos, milhões de africanos foram sequestrados e tratados como mercadorias em colônias europeias. Esse crime abominável persistiu mesmo após a independência de várias nações. O Brasil se destacou como um dos principais destinos para essas pessoas escravizadas, com mais de 4,8 milhões de africanos cruzando o Oceano Atlântico em condições desumanas, através da violência e dos infames navios negreiros.

A artista portuguesa Grada Kilomba nos provoca a pensar: o que o fundo do oceano nos diria se pudéssemos esvaziá-lo de água hoje? "O Barco vem à tona para nos mostrar aquilo que ficou submerso em muitos barcos que adornam monumentos na Europa e na América Latina. Esses monumentos frequentemente glorificam uma história, apresentando-a como um grande descobrimento. Como artista, me interessa questionar o que realmente significa essa glória e o que esses barcos gloriosos escondiam em suas profundezas", compartilhou Kilomba.

Ela prosseguiu: "Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra revelariam trilhões de passagens de corpos humanos, não apenas do passado, mas também do presente, em um ciclo de violência que se repete".

A obra de Grada Kilomba, que combina escultura e performance, é composta por 134 blocos de madeira queimada, organizados em uma área de 220 metros quadrados, com 32 metros de comprimento. Essa instalação representa a silhueta do fundo de uma grande embarcação, revelando a arquitetura dos porões dos navios negreiros, projetados para acomodar os corpos de milhões de africanos escravizados.

"O Barco" é fruto de uma pesquisa meticulosa da artista, que abrange botânica, história e as travessias transatlânticas. A obra também dialoga com a trágica história de Antígona, onde questões sobre quem merece ser lembrado e celebrado são levantadas. "Esta obra [O Barco] segue a linha de Antígona, questionando quem merece ser enterrado e lembrado, quem tem um espaço para ser celebrado e quem não. Não é à toa que algumas histórias são esquecidas e proibidas de serem recordadas; isso impacta diretamente nossa memória", refletiu a artista.

"O oceano, para mim, é um imenso espaço de sepultamento, abrigando milhões de vidas perdidas, não apenas pela escravização e colonialismo, mas também devido a guerras, mudanças climáticas e migrações forçadas". A obra nos conecta com o passado, mas também nos alerta sobre múltiplos barcos que atualmente continuam a navegar em águas de dor e sofrimento.

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