Exposição Fotográfica no Rio: Criatividade dos Vendedores Ambulantes
A mostra 'Não Somos Mula' revela a resiliência e inovação dos trabalhadores ambulantes cariocas, em cartaz até 30 de agosto.

A criatividade e a resiliência dos trabalhadores ambulantes das praias do Rio de Janeiro são o foco de uma exposição fotográfica em cartaz no Centro Municipal Hélio Oiticica, disponível até 30 de agosto de 2026. Intitulada 'Não Somos Mula', a mostra do renomado fotógrafo Rogério Reis apresenta cerca de 120 imagens, em sua maioria inéditas. O termo 'mula' refere-se a esses trabalhadores que atuam nas areias da orla carioca, carregando pesos significativos, como os vendedores de mate que transportam galões cheios de bebidas.
As fotos e projeções capturadas por Reis durante suas caminhadas pela orla oferecem um contraponto poético ao labor árduo desses ambulantes. As imagens destacam a inovação e a criatividade desses trabalhadores, que desenvolvem estruturas engenhosas para transportar suas mercadorias e organizar suas atividades diárias.
Materiais como carrinhos, caixas térmicas, guarda-sóis e suportes improvisados transformam-se, nas lentes de Reis, em verdadeiras esculturas e instalações. Ele descreve seu trabalho como uma "sistematização poética desses artefatos", essenciais para a exposição dos produtos.
Cerca de 80% das fotografias foram capturadas em Copacabana, onde a atividade é mais intensa, enquanto os 20% restantes foram feitos nas areias do Arpoador, Ipanema e Leblon.
A exposição chega em um momento delicado, quando os ambulantes protestam contra o Programa Tolerância Zero, uma iniciativa da Prefeitura do Rio de Janeiro para reordenar o espaço urbano da orla. Essa ação aumentou a fiscalização sobre os vendedores que atuam sem as credenciais necessárias, alegando que o comércio irregular está nas mãos de facções criminosas.
O Movimento Unido dos Camelôs (Muca) mobiliza-se, levando suas reivindicações às ruas e buscando diálogo, afirmando que os trabalhadores estão sendo tratados como criminosos. O Ministério Público Federal também levantou questões sobre o programa, apresentando uma ação civil pública para sua suspensão imediata. O procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, criticou a medida, apontando que foi implementada sem diálogo com a União e sem considerar a participação da sociedade, além de não oferecer alternativas para regularização dos milhares de ambulantes que dependem desse trabalho para sua sobrevivência.
Em conversas com os trabalhadores nas areias, Rogério Reis ouviu relatos preocupantes sobre a possibilidade de privatização desse setor, que já opera em condições precárias. Os ambulantes expressaram temor de que, futuramente, grandes empresas venham a ocupar o espaço que hoje é deles. Reis defende que o governo municipal deveria, em vez de adotar o Tolerância Zero, investir em um projeto socioeducativo que valorizasse e qualificasse esse tipo de trabalho.
