Desmatamento na Amazônia ameaça a maior 'máquina de chuva' do planeta
Pesquisadoras alertam sobre os impactos do desmatamento na Amazônia e suas consequências para o ciclo hídrico da América do Sul.

12/09/2026 10h29
Atualizado há cerca de 22 minutos
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Uma máquina silenciosa opera incessantemente, garantindo que milhões de pessoas na América do Sul tenham acesso à água, rios e plantações. Esse mecanismo, que chamamos de Amazônia, funciona de uma maneira fascinante: a umidade que vem do oceano gera chuvas sobre a floresta; essa água é absorvida pelo solo, pelas árvores, e, em seguida, liberada de volta na atmosfera como vapor. O vento então se encarrega de espalhar esse vapor por todo o continente, resultando em chuvas em diversas regiões.
De acordo com a pesquisadora Julia Valentim Tavares, essa é a principal infraestrutura hídrica da América do Sul e a maior “máquina de chuva” do planeta. É impressionante pensar que uma única árvore adulta na Amazônia pode liberar entre 200 a 300 litros de água todos os dias.
“Imaginem 400 bilhões delas trabalhando em conjunto diariamente. Se conseguíssemos visualizar essa umidade, veríamos rios gigantes voando no céu. Esse fenômeno é o que nós, cientistas, chamamos de rios voadores”, explica Julia.
Marielos Peñaclaros, copresidente do Painel Científico pela Amazônia, que reúne mais de 350 cientistas dedicados ao estudo desse bioma, ressalta que a floresta é, de fato, a coluna vertebral dos ciclos de água, nutrientes e carbono em níveis local, regional e global.
A capital amanheceu com um céu bastante chuvoso.
“Em outras palavras, a Amazônia é essencial para sustentar a vida, não apenas na região amazônica, mas no planeta como um todo”, acrescenta Marielos.
As duas pesquisadoras participaram da última edição do TEDxAmazonia, que ocorreu no final de agosto, no Equador.
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Além de enfatizar a importância desse sistema hídrico, as cientistas emitiram um alerta preocupante: a devastação da Amazônia já está impactando essa “máquina de chuva”, e sua desestabilização teria consequências catastróficas para todo o planeta.
Segundo Marielos, atividades como mineração e narcotráfico, juntamente com o desmatamento e as queimadas, estão prejudicando diretamente a conectividade da Amazônia, um fator crucial para a preservação do bioma.
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“A Amazônia é um mosaico vivo de ecossistemas terrestres e aquáticos interconectados, que abriga uma diversidade imensa de culturas. Essas comunidades possuem um relacionamento profundo e interdependente com os ecossistemas, o que se reflete em seus modos de vida, práticas de manejo e conhecimento acumulado”, ressalta.
Ela também menciona que os efeitos no clima já são visíveis, com evidências de que o desmatamento na Amazônia brasileira está resultando em menos chuvas em regiões do Brasil e da Bolívia. Nas áreas desmatadas, a temperatura tem aumentado, e as secas estão se tornando mais intensas e prolongadas.
Meteorologistas já alertam que esse cenário de chuvas intensas pode não se manter durante todo o verão.
Julia Valentim Tavares está, também, monitorando esses efeitos a partir do interior das árvores na borda sul da Amazônia, conhecida como arco do desmatamento. Nesse local, o volume de chuvas já diminuiu e a temperatura aumentou na última década. Ela investiga por quanto tempo essas árvores podem suportar as secas antes que suas estruturas internas sejam comprometidas.
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Nos últimos anos, a região também tem sofrido com os efeitos do aquecimento global. Em 2024, a Amazônia enfrentou a pior seca da sua história, por consequência do El Niño, fenômeno natural de aquecimento das águas do Oceano Pacífico, que altera a circulação atmosférica, e tem se tornado mais intenso. Marielos destaca que 88% da bacia amazônica sentiu os efeitos dessa seca, que também interferiu na 'máquina de chuva'. A capital da Colômbia, Bogotá, localizada na região dos Andes, sofreu desabastecimento de água. Em Quito, capital do Equador, que também está fora da Amazônia, a falta de água levou a cortes no fornecimento de energia elétrica. 'A pergunta que todos deveríamos estar fazendo é: De onde nasce a água de inúmeras cidades latino-americanas? De onde nasce a água que usamos na agricultura, pecuária, indústria, produção de alimentos?', provocou a copresidente do Painel Científico pela Amazônia.
