
Crescimento das Recuperações Extrajudiciais no Brasil em 2026
Com a alta dos juros, empresas brasileiras buscam recuperação extrajudicial para evitar custos judiciais e renegociar dívidas.
Kelly Sikkema/ Unsplash)
SÃO PAULO, 6 de julho de 2026 – O pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, que acumula dívidas impressionantes de R$65,1 bilhões, agitou o mercado neste ano. Contudo, essa situação não é um episódio isolado. Após anos enfrentando juros extremamente altos, que figuram entre os mais elevados do mundo, um número crescente de empresas brasileiras tem buscado negociar com seus credores fora dos tribunais. Essa estratégia visa evitar os custos que vêm associados à recuperação judicial.
Na prática, os pedidos de recuperação extrajudicial dispararam de 16 em 2021 para 84 no ano passado. Essa tendência abrange uma variedade de setores, incluindo indústria, mineração, varejo, agronegócio e logística, conforme dados do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre). Até agora, em 2026, 33 empresas já seguiram por esse mesmo caminho.
Esse aumento reflete o peso que a taxa básica de juros, atualmente em 14,25% ao ano, impõe a muitas empresas brasileiras, especialmente aquelas que contraíram empréstimos significativos durante a pandemia, quando a Selic atingiu um patamar historicamente baixo de 2% ao ano. Além disso, uma reforma implementada em 2020 fortaleceu o mecanismo de recuperação extrajudicial no Brasil, promovendo, segundo Juliana Biolchi, diretora do Obre, “uma mudança cultural”. Essa atualização trouxe mais flexibilidade às reestruturações, permitindo que as empresas excluíssem determinadas classes de credores e incentivando o início das negociações de dívida antes que um processo judicial se tornasse necessário.
A reestruturação extrajudicial permite que empresas em dificuldades negociem diretamente com grupos selecionados de credores. Uma vez que o plano de reestruturação é aprovado por uma maioria simples, ele se torna vinculativo para todos os credores das classes envolvidas, o que impede que aqueles que não aceitam o acordo bloqueiem o processo.
Esse mecanismo ganhou destaque no Brasil em 2024, quando a rede varejista Casas Bahia conseguiu a aprovação judicial para uma reestruturação extrajudicial no valor de cerca de R$4,1 bilhões. O setor agrícola, que atualmente enfrenta um elevado nível de endividamento, também tem recorrido a esse processo, evidenciando que seu uso se espalha por diversas áreas da economia brasileira.
No caso da Raízen, o endividamento das empresas que pediram recuperação extrajudicial este ano ultrapassou R$109 bilhões em 2026, um salto considerável em comparação aos R$41,5 bilhões registrados em 2024, fazendo com que os mercados sintam o impacto dessa situação.
