Arbitro Rosário: A Sensação dos Jogos Olímpicos Rio 2016
Jones Kennedy Rosário conquistou o coração da torcida durante a semifinal de boxe, tornando-se um ícone inesperado dos Jogos Olímpicos Rio 2016.
A semifinal de boxe entre um britânico e um cazaque nos Jogos Rio 2016 poderia facilmente passar despercebida pela torcida. No entanto, essa não é a tradição dos torcedores brasileiros, que sempre buscam algo ou alguém para apoiar. E, naquele momento, o motivo estava bem visível no ringue do Pavilhão 6 do Riocentro.
Jones Kennedy Rosário, o árbitro da luta entre Joshua Buatsi e Adilbek Niyazimbetov, começou a ouvir seu sobrenome ecoar nas arquibancadas. Porém, não estava acostumado a ter torcida a seu favor e, mais conhecido como Kennedy no mundo do boxe, pensou que estavam o xingando.
— Eu pensava: "Caramba, será que estão me chamando de otário no meu país?".
Quando cheguei à área dos árbitros, a galera gritava "Rosário, Rosário". Aí percebi que era Rosário e não otário — contou, rindo da situação.
Essa luta antecedia o combate do brasileiro Robson Conceição, que lutaria pelo ouro, então a arena estava cheia. O público, eufórico, gritava frases como "Rosário é melhor que o Neymar" e "O Rosário vem aí e o bicho vai pegar", desafiando a concentração do experiente árbitro, que já tinha participado dos Jogos Olímpicos de Londres 2012.
— Quando o locutor anunciava meu nome, a galera ia ao delírio. Eu apenas esboçava um pequeno sorriso, porque precisava manter o foco.
Se o árbitro não se concentra, ele se perde no combate. Então, não tinha nem tempo para pensar no que estava acontecendo ao redor — relembrou.
Essa comoção inesperada logo ganhou repercussão internacional, transformando Rosário em uma celebridade. Ao caminhar pelas ruas do Rio, era comum que as pessoas o parassem para pedir fotos.
No celular, mais de cem mensagens aguardavam sua resposta. Ao todo, ele arbitrou 20 lutas durante os Jogos e, ao final, foi eleito o melhor árbitro do evento.
— Foi o ápice da minha carreira, um triunfo para um árbitro. Nunca vi um público torcer tanto por um árbitro como aconteceu comigo. Até hoje, quando há Olimpíadas, sou lembrado — disse, sorrindo.
Antes de se tornar o conhecido Rosário, Jones Kennedy iniciou sua trajetória no boxe amador na década de 1980, sempre sonhando em participar das Olimpíadas. No entanto, ao perceber que as chances como atleta eram limitadas, decidiu fazer um curso de árbitro em Belém, capital do Pará.
A partir desse ponto, sua carreira deslanchou. No primeiro Campeonato Brasileiro em que participou, foi eleito o melhor árbitro.
Em 1990, começou a atuar em competições internacionais e, desde então, visitou 69 países. Rosário fala inglês, espanhol e italiano, e se orgulha de ter participado de cinco Pan-Americanos, oito Sul-Americanos e 13 Campeonatos Mundiais.
Hoje, aos 60 anos, Rosário continua como árbitro e também se dedica à organização de eventos e à formação da nova geração de profissionais. Ele se prepara para colocar as luvas de lado em 2027.
— Deixarei um legado, isso é certo — finalizou.


